Profissional de Nova Venécia relembra 28 anos de luta, estudo e fé, fala da conquista em Singapura e revela por que chegar ao topo trouxe uma nova missão: servir e inspirar outras pessoas.
ENTREVISTA: PORTAL DIGITAL CONECTA NV
Uma bicicleta, uma família simples, um salário quase todo comprometido com a faculdade e um sonho que, naquele início, nem sequer parecia possível. Aos 19 anos, João Carlos Butske entrou no setor de panificação fazendo entregas de pães. Vinte e oito anos depois, o profissional radicado em Nova Venécia chegou ao maior reconhecimento de sua carreira: o título de Melhor Padeiro do Mundo.
Antes da conquista mundial, Butske já havia sido reconhecido como Melhor Padeiro das Américas, em 2024. Em Singapura, representando o Brasil, o Espírito Santo e Nova Venécia, apresentou um produto criado para carregar a identidade capixaba: o “pão torta capixaba”. A receita precisou ser adaptada durante a competição e ganhou um ingrediente da culinária asiática, o broto de bambu, em uma solução que, segundo ele, agradou aos jurados.
Nesta entrevista especial ao Portal Digital Conecta NV, João Carlos Butske fala sobre as dificuldades financeiras, a formação profissional, a importância da Padaria Salute, da família e das instituições que o apoiaram, além das mudanças provocadas pela tecnologia na panificação. Também deixa uma mensagem para quem está começando: “Ninguém cresce fazendo o mínimo. Você tem que dar o seu melhor.”
| “Quando olho pelo retrovisor, passa um filme. Vejo de onde saímos, onde começamos e tudo o que foi construído até aqui.” |
- João, sua história na panificação começou de uma maneira muito simples, como entregador de pães de bicicleta. Quando você olha para aquele jovem e para o profissional que hoje é reconhecido como o Melhor Padeiro do Mundo, o que passa pela sua cabeça?
Comecei no setor de panificação muito novo, aos 19 anos, entregando pão de bicicleta. Depois de 28 anos dessa caminhada, alcançamos o título de Melhor Padeiro do Mundo. Em 2024, conquistamos o reconhecimento de Melhor Padeiro das Américas e, agora, chegamos ao melhor do mundo. Quando olho para trás, pelo retrovisor, vejo o reconhecimento daquilo que plantamos lá atrás e que estamos colhendo hoje. Jamais imaginei chegar aonde cheguei. Passa um filme na cabeça: de onde saímos, onde começamos e toda a trajetória. É muito prazeroso ver aquele jovem que entrou na panificação sem perspectiva, vindo de uma família muito simples e humilde, hoje viajando o mundo fazendo pão. É motivo de muita honra e alegria viver este momento. E quero dizer: toda honra e toda glória ao nosso Deus.
- Foram 28 anos de trabalho, estudo e dedicação até chegar a esse reconhecimento internacional. Qual foi o momento mais difícil dessa trajetória e o que fez você continuar quando as dificuldades apareceram?
Foram muitos momentos de dificuldade e luta. Eu sempre tive o sonho de fazer um curso superior. Na minha família ninguém tinha formação superior e eu fui o primeiro a buscar isso, cursando Administração. Na época, eu ganhava R$ 270 e a mensalidade era R$ 267. Pensei que não conseguiria. Juntei dinheiro durante seis meses e ingressei na faculdade. Depois tentei o Fies, mas não consegui. O que eu recebia na padaria praticamente ia para a mensalidade. Quando estava por volta do quinto ou sexto período, me casei e fui morar no porão de uma casa. Ganhei seis meses de aluguel e depois passei a pagar R$ 80. Financeiramente, foi uma caminhada muito apertada. Em determinado momento, Delson, da padaria, me falou de um curso de padeiro em Vitória, com duração de um mês. Fui estudar, fiquei um mês afastado da faculdade, porque precisava ganhar mais para conseguir continuar pagando meus estudos. Foi a partir dali que comecei a estudar panificação com mais profundidade e a aplicar também o que aprendia em Administração dentro do setor. Assim fomos construindo o caminho até chegar aos dias de hoje.
- O título de Melhor Padeiro do Mundo é uma conquista extraordinária. Como foi representar o Brasil em Singapura e perceber que todo o trabalho desenvolvido durante tantos anos estava sendo reconhecido mundialmente?
O título de Melhor Padeiro do Mundo é o topo, o maior reconhecimento do setor de panificação. Conquistá-lo foi muito prazeroso. Fui a Singapura, na Ásia, praticamente do outro lado do mundo, para representar o Brasil. Quero agradecer à ABIP, Associação Brasileira da Indústria de Panificação, e ao ex-presidente Paulo Meneghel, pelo convite para ser o representante brasileiro, pela confiança e pelo reconhecimento do nosso trabalho. Foi motivo de muita honra e alegria representar o nosso país, o Espírito Santo e também Nova Venécia. Receber esse reconhecimento mundial em Singapura foi um momento inesquecível.
- Existe algum pão, receita ou técnica que tenha sido especialmente importante para a conquista desse título? O que você acredita que mais chamou a atenção dos avaliadores?
Fomos para Singapura com um projeto desenvolvido juntamente com a ABIP: levar um produto tipicamente capixaba. Recebi o desafio de criar um pão que tivesse a cara e a identidade do Espírito Santo. Assim nasceu o “pão torta capixaba”, levando a cultura, as raízes e a tradição do nosso estado, inclusive a referência às paneleiras de Goiabeiras. O produto caiu no gosto dos jurados. Tivemos dificuldades para encontrar alguns ingredientes da receita, como palmito e bacalhau, e precisamos fazer adaptações. Não encontrei palmito no supermercado, mas encontrei broto de bambu, que é um ingrediente muito presente na culinária asiática. Fizemos essa adaptação e acredito que isso também trouxe um ponto muito positivo, porque aproximou a nossa proposta da cultura local e agradou ao público e aos jurados.
- Mesmo depois de alcançar o reconhecimento mundial, você continua mantendo uma ligação muito forte com o trabalho cotidiano na Padaria Salute. O que esse lugar representa na sua história profissional?
Depois do título mundial, continuo na Padaria Salute com a mesma rotina, fazendo pão, trabalhando na produção e levantando cedo, de madrugada. É claro que hoje temos outras agendas e estamos viajando bastante. Há compromissos nos Estados Unidos, em Manaus, no Sul do país, em Porto Alegre, além de palestras e treinamentos pelo Brasil. Mas não deixamos de fazer o dever de casa na Padaria Salute. Foi o meu primeiro emprego e tenho muita gratidão à família Zampirolli, que abriu uma porta para mim, deu condições para buscar conhecimento e crescer dentro da empresa. Hoje cheguei à condição de sócio da Padaria Salute. Ela faz parte da minha história e também desses títulos. Eu jamais teria conquistado o reconhecimento de Melhor Padeiro das Américas e Melhor Padeiro do Mundo sem essa luz no meu caminho. Sou grato primeiramente a Deus, toda honra e toda glória a Ele, e tenho certeza de que foi Deus quem nos colocou ali. A Padaria Salute faz parte dessa história e nós estamos juntos.
- A panificação mudou muito nas últimas décadas, principalmente com a chegada de novas tecnologias. Como conciliar inovação e modernização sem perder a tradição e a essência do pão artesanal?
A panificação vem passando por uma evolução muito grande, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Hoje vemos inteligência artificial sendo utilizada em planilhas, gestão, fluxo de caixa e até na produção. Também há robótica, especialmente na Ásia, com robôs fazendo atendimento, além das vendas on-line, da automação e das novas tecnologias de frio. A tecnologia está entrando definitivamente no setor e as padarias precisam se adequar. Mas, mesmo com tudo isso, costumo dizer que o sucesso da padaria também está no passado. Precisamos manter a produção artesanal, a memória afetiva e aquilo que remete às origens. Hoje se fala muito em fermentação natural e fermentação prolongada. Para mim, isso não é apenas um modismo: é voltar às origens. É quase uma engenharia reversa da panificação, resgatando o passado e, ao mesmo tempo, incorporando tecnologia e inovação. Essa é uma tendência não apenas brasileira, mas mundial.
- Você costuma destacar que “ninguém chega ao topo sozinho”. Quais pessoas, profissionais ou instituições foram fundamentais para que João Carlos Butske chegasse ao lugar que ocupa hoje?
Ninguém chega ao topo sozinho. Essa é uma frase que sempre digo porque precisamos de pessoas boas ao nosso lado. Primeiramente, preciso da bênção e da força do Senhor, e acredito que Deus também coloca pessoas em nosso caminho para nos abençoar. A Padaria Salute e Delson Zampirolli tiveram papel muito importante nessa jornada. Minha família também é a base. Minha esposa, meus pais, meus irmãos: todos foram fundamentais. Quando comecei a faculdade, meus pais me ajudavam com comida e roupa para que eu pudesse pagar os estudos, e minha irmã também me ajudou muito. Depois de casado, muitas vezes eu passava a noite estudando e precisava trabalhar cedo no dia seguinte. Sem uma esposa que compreendesse e apoiasse isso, eu não teria chegado onde cheguei. Da mesma forma, a Padaria Salute compreendia quando eu precisava viajar e estudar. Também houve entidades e profissionais do setor, além do Sebrae e de organizações ligadas à panificação, que fizeram parte dessa construção. Existe uma grande engrenagem formada por pessoas e instituições. Por isso digo: ninguém chega ao topo sozinho. Sempre precisamos de pessoas que nos apoiem, incentivem e acreditem na gente.
- Depois de ser reconhecido como o Melhor Padeiro do Mundo, o que mudou na sua vida profissional e pessoal? O título aumentou também a responsabilidade de representar a panificação brasileira?
Com certeza. Eu disse recentemente que esse título não é meu, é nosso. Mas ele também traz um peso e uma responsabilidade muito grandes, porque passamos a representar o Brasil e o nosso estado em outros lugares. Hoje tenho muitos convites para palestras e treinamentos; vou novamente a Manaus para ministrar um treinamento, por exemplo. O reconhecimento aumenta, mas a responsabilidade cresce junto. Quanto mais é dado, mais também é cobrado.
- Para aquele jovem que hoje trabalha em uma padaria, talvez começando justamente em uma função simples como você começou, qual conselho você daria para que ele possa construir uma carreira de sucesso?
Se eu pudesse falar com o João que começou há 28 anos, eu diria: estude, estude, estude. Sei que busquei conhecimento, mas poderia ter me dedicado ainda mais, principalmente quando era solteiro, jovem, aos 19 anos. Para quem está começando, meu conselho é: estude aquilo que você faz, seja bom, seja dedicado, tenha comprometimento e responsabilidade. Ninguém cresce fazendo o mínimo. Você tem que dar o seu melhor.
- Você chegou a uma posição que poucos profissionais no mundo conseguem alcançar. Depois de conquistar o título de Melhor Padeiro do Mundo, qual é o próximo sonho de João Carlos Butske?
Cheguei ao topo, mas não acabou. Agora o projeto é se manter no topo durante muitos anos, talvez 10 ou 20 anos nesse nível de reconhecimento. Para isso, preciso me qualificar, estudar, buscar conhecimento e desenvolver novas técnicas. Mas sempre faço uma pergunta: para que serve tudo isso se não for para orientar e servir o próximo? Meu maior sonho é poder ser útil na vida de outras pessoas, ser exemplo e fazer com que possamos crescer juntos. Essa é a minha fala.
| “Para que serve tudo isso se não for para orientar e servir o próximo? Meu maior sonho é poder ser útil na vida de outras pessoas, ser exemplo e fazer com que possamos crescer juntos.” |
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